O FUGITIVO


Era noite já, sua mãe logo iria chegar do serviço, seu tio estava olhando a novela e bebendo como sempre. Ele chegou do colégio apreensivo com o bilhete, sabia que iria apanhar então foi para rua conversar com os amigos, no eram bem amigos, eram mais vizinhos, pois ele apanhava quase todos os dias deles. Imaginou que ela não faria um escândalo na frente deles, mas se enganou quando ela saiu no porto gritando seu nome.
__o que é isso aqui! Mostrando o bilhete do colégio pra ele ao mesmo tempo em que os garotos riam da cara dele. A sua revolta foi tão grande pela vida infeliz que levava que quando sua mãe puxou sua orelha para levá-lo para dentro para apanhar ele entrou em um estado de frenesi que não deixou que ele raciocinasse. Ele se avançou na sua mãe com socos e saiu correndo desesperado pela rua, os gritos da mãe ficaram para traz, mas os garotos não. Eles vinham atrás para levá-lo de volta e ele correu mais rápido indo se esconder em um túnel de esgoto que ficava em baixo de uma rua próxima. Só não molhou os pés por que a água que corria no túnel era rasa e estava cheio de pedras e ele ficou parado no escuro ouvido passo na rua acima, havia saída para os dois lados da rua e provavelmente estavam os dois cercados. A água que corria por sobre as pedras molhou seu tênis, mas isso era o menos importante, tinha que passar por um deles e foi o que fez, quando ele tentou subir correndo o barranco um dos garotos o segurou pelo pescoço e ele caiu deitado, sem pensar o garoto foi segura-lo, mas sua raiva era tanta que ele usou os pés e as mãos para afastá-lo. E funcionou, ele levantou e saiu correndo pela rua, é impressionante o que um garoto de 12 anos pode fazer em um estado de fúria. Ele correu ate a casa da sua tia subiu na cerca e começou a chamá-la dizendo que os garotos queriam pega-lo. Ela apareceu na janela, mas não deu tempo, quando ele os viu já estavam na esquina, ele saltou da cerca e saiu correndo, não conseguia despistar os garotos então correu para o único lugar que imaginou que eles não iriam, Porto Alegre. Ele correu para a ponte sobre o rio Gravataí e seguiu em direção a Assis Brasil, olhou para trás e os garotos estavam parados na ponte, só então começou a caminhar ofegante. Ele começou a caminhar sem rumo, não sabia que horas eram da madrugada, mas não queriam falar com nenhum estranho, pois não queria responder nenhuma pergunta e por enquanto não fazia frio. Passava por paradas, bares e algumas pessoas na rua e ninguém reparava nele, como se fosse um mendigo apesar da sua roupa humilde era limpinha. Ele caminhou pela madrugada a fora sem se preocupar com os perigos da noite, como se soubesse que estava protegido, sabia que logo sentiria fome e teve sorte ao passar por uma lanchonete e ver um resto de Coca-Cola e meio cachorro quente em cima de uma mesa vazia. Ele foi logo pedir a um rapaz que limpava as mesas se poderia pegar aquele cachorro que estava com fome e claro, o rapaz disse sim, ele saiu feliz da vida. Continuou caminhando de estomago cheio e a mente cheia de coisas, como seria se ele não voltasse para casa, sua mãe se recuperaria, ele sobreviveria na rua, parece que ele sabia que anos mais tarde iria perder o emprego, a casa e iria morar na rua. Tantas questões perturbando sua cabeça. Mas de uma coisa ele tinha certeza, melhor morar na rua do que passar anos apanhando na sua rua, vendo sua mãe ser humilhada por vagabundos e ver seu tio se acabar na cachaça. Talvez se adaptasse nas ruas, pois não tinha medo de andar sozinho e era muito esperto. Ele conhecia um pouco de Porto Alegre e percebeu que estava chegando ao hospital Cristo Redentor que ficava em uma esquina e do outro lado da avenida havia uma rua que levava ao hospital Conceição, sentou em um muro com um canteiro e ficou observando as pessoas na emergência do hospital. Ele tem a facilidade de criar situações na sua imaginação, ficou imaginando cada uma daquelas pessoas, qual era o problema delas, se algumas mereceram estar ali. Depois de se cansar de ficar parado foi dar uma volta pela avenida e no caminho encontrou um gari varrendo a rua, ate que enfim alguém
Para conversar, se aproximou e o gari logo puxou assunto.
__O que esta fazendo essa hora na rua garoto. Ele não queria contar a verdade, achava a verdade muito chata.
__Eu fugi de casa por causa da minha madrasta, ela casou com meu pai por causa de dinheiro.
__Então teu pai tem muito dinheiro? Eu não fugiria de casa por isso.
__ Ela me bate e briga comigo, odeio ela.
__Mas você tem que contar pro seu pai. Fugir de casa não ajuda, não sabe como é perigoso na rua.
__ Eu sei, mas me sinto como se essa não fosse a minha vida. E eu não tenho medo da rua e da noite, como se eu sempre tivesse vivido isso entende?
__ Entendo. Como você se chama? Ele não poderia dizer seu nome, pois ele poderia chamar a policia então mentiu.
__ Me chamo Lucas e o seu?=
__ Sou Airton. Quando você diz que já viveu isso é como em uma vida passada?
__ Sim. Ele respondeu.
__ Mas tem que ficar sempre esperto por causa dos estripadores de crianças. Tem em tudo que é lugar.
__ Eu sei já vi isso na TV. Eles conversaram pela madrugada indo ate o viaduto da Obiricí e voltando e quando ele percebeu estava no Cristo Redentor novamente, perguntou as horas ao gari, era 02h47min, deu adeus e foi por uma rua lateral que levava ao Hospital Conceição. Duas quadras depois que ele entra na rua parcialmente escura um carro encosta e o homem, um senhor de uns 45 anos de cabelos grisalhos e uma grande barriga pergunta se ele quer uma carona. Ele diz que sim, mas uma carona pra onde, ele não tinha rumo, queria vagar por Porto Alegre. Eles seguiram pela rua do hospital com pressa e quando ele percebeu estava em uma rua de terra com mato dos dois lados, só então se deu conta da besteira que estava fazendo e teve a idéia de pedir pro homem parar que ele precisava ir ao banheiro, não acreditou muito que ele pararia, mas foi o que ele fez. Quando ele parou Lucas abriu a porta correndo e foi pro meio da estrada e levantaram as mãos pedindo socorro pro primeiro carro que passou, para sua sorte era um taxi, assim que ele parou o homem que queria abusar dele fechou a porta do carro e saiu queimando pinéu. Ele entrou no taxi e contou a historia daquela noite longa ate ali, ficou surpreso por o ponto de taxi ser em frente ao Cristo Redentor. Três vezes ele vai parar na frente do mesmo hospital na mesma noite, qual a chance disso acontecer? Ele agradeceu a carona e disse iria para casa, mas ainda não queria. Esta com sono e com frio, pois fugiu com uma calça e uma camiseta de manga curta, encontrou uns pedaços de papelão jogados no canteiro em frente ao hospital e fez uma cama no chão de terra, colocou um em baixo para deitar e com o outro se tampou. Ele conseguiu pegar no sono, mas estava muito frio e acordou certa hora temendo e reparou que havia pessoas na emergência do hospital olhando curiosas para ele, levantou desejando a sua cama e um prato de comida e decidiu ir embora. Voltou caminhando pela Assis Brasil, quando estava próximo do shopping Streep Center saiu da parada um alemão de cabelo comprido com rabo de cavalo e ia pela rua lateral ao shopping e Lucas ia pela principal, mas os dois ficaram se olhando por que o terreno da esquina era de grade, eles viraram e foram voltando como se um tivesse algo a dizer um ao outro, mas Lucas estava apavorado,quando se aproximaram o rapaz perguntou se ele queria fazer sexo com o rapaz, ele com os olhos arregalados já dando paços para traz pronto para correr começou a balançar a cabeça dizendo não por que a voz não queria sair. Ele virou e continuou seu caminho rápido olhando para ver se o rapaz iria voltar, ate hoje ele se pergunta por que motivo foi ao encontro do rapaz. Faltavam alguns kilometros para chegar a casa, mas ele estava tão cansado e estava próximo ao posto de gasolina Garoupa, um dos mais freqüentados por caminhoneiros. Foi perguntar ao frentista se havia algum lugar que ele pudesse descansar, o frentista o levou a uma sala que servia como deposito de bombas e barris de óleo, ele colocou um tapete velho no chão e Lucas deitou, ele demorou um pouco a pegar no sono e ficou ouvindo os barulhos dos caminhões que chegavam e saiam, mas foi o melhor sono da noite. Na manhã seguinte o frentista abriu a porta da sala e acordou Lucas dizendo que o turno dele tinha acabado, e se oferecei para levar o garoto para casa, comprou um pastel para o garoto e foram pegar o ônibus. Em alguns minutos eles já estavam em Cachoeirinha, Lucas disse ao rapaz onde morava e ele foi ate a casa do garoto. Quando chegou à frente da casa o tio do garoto estava sentado em um banquinho na varanda tomando chimarrão, quando viu Lucas começou a gritar com os olhos cheios de lagrimas para a mãe dele. Apesar de o tio ser alcoólatra ele amava muito o tio, hoje já adulto ele freqüentemente chora ao lembrar-se do tio e se culpa por não ter cuidado melhor dele.
__ Mercedes o Lucas voltou! Sua mãe saiu na porta correndo ao encontro do garoto para abraçá-lo.
__ Meu filho onde você estava? Por que fugiu de casa?
__ Calma mãe eu to bem. Eu só tava cansado dessa vida aqui nesse bairro.
__ È a vida que a gente tem. Mas vai melhorar. Vamos entrar tomar um banho e comer alguma coisa. Ela agradeceu o rapaz por ter trazido seu filho e foi para dentro.
No caminho Lucas deu oi para o tio.
__ Mãe. . . Quando eu tava em Porto Alegre ontem eu tive uma sensação muito forte de que aquela era minha vida. Lucas disse enquanto comia suas torradas
__ Não fala besteira Lucas! Morar na rua não é fácil.
__ Eu sei mãe, mas é como se eu já tivesse feito isso antes.
__ Antes quando? Você ta delirando por causa da noite agitada. Come e vai dormir. Hoje você não vai para a escola. Ele foi pro seu quarto pensando na noite anterior, deitou pensando em como seria a vida de rua no centro de Porto Alegre, se ele fosse embora não traria mais problemas pra sua mãe e talvez ela se mudasse dessa casa e teria uma vida melhor. Mas o sono o venceu e os pensamentos se apagaram.

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